quinta-feira, 31 de maio de 2012

Como esta sendo difícil ser vadia!



Antes das manifestações do ano passado, mesmo estando distante das capitais de RJ e SP e não podendo juntar-me. Embora apreensiva divulgava e incentivava, pois, estava até animada confiando na sabedoria dos grupos feministas em aproveitarem bem a oportunidade de atenção causada pela ousadia do título, portanto até divulguei com orgulho.  

Claro que desaprovei a nudez, talvez por ser de uma época que em que tínhamos um senso de honra muito intenso para com a causa feminista, seja muito estranho aceitar tamanha exposição.   É como se estivéssemos sendo contraditórias, pois, ao menos pelo que conheço das intenções feministas, não é objetivo que andemos nus.
A meu ver estar adequadamente vestid@s, é um dos pontos que nos diferem dos animais e povos selvagens.


Mas nada chocou-me tanto quanto ver as postagens desse ano em que meus colegas de FB fizeram questão de postarem, cheias de manifestações ridicularizando o ocorrido e o movimento feminista.
Fiquei sem chão, pirei ao ponto de humanamente manifestar meu repúdio com fúria à essas garotas. 


Pra piorar a situação ainda teve excessos como o das que se manifestaram no pátio de uma igreja católica no RJ,  http://oandarilho01.wordpress.com/  além dos erros ortográficos grosseiros.


Já estava sendo muito difícil pra minha pessoa aceitar as manifestações das europeias que estavam sendo presas em manifestações com os seios de fora, que ao meu ver fora uma apelação exibicionista que sempre me fez sentir tristeza e vergonha.
E o apropriamento do título de Vadia por grupos feministas, pirou ainda mais.




Entendo a estratégia, mas acho desnecessário, sendo ciente da manipulação conservadora que existe na mídia, vejo como se estivessem a ridicularizar com todo nosso empenho de fazer valer o respeito para com o indivíduo mulher na sociedade.  

Diferente do que algumas tentaram fazer parecer, quando me manifestei no passado contrária a ações como esta não é conservadorismo de minha parte. 


 Além de ofensivo, chega a ser ridículo usar tal argumento contra uma libertária, sendo eu ateísta e feminista que apoia causas tão polêmicas como a legalização da profissão de profissionais do sexo, a homossexualidade, a descriminalização do aborto, a descriminalização do uso de entorpecentes de forma de recreativa e etc. É tão infame como chamar um judeu de nazista. 

Mas mesmo rejeitando tal atitude, minha honra feminista nunca tinha me permitido apoiar críticas públicas contra mulheres descuidadas com suas imagens, mesmo algumas até me causando revolta como é caso das dançarinas de Funk.  No máximo que costumo fazer é um apelo á própria artista ou um desabafo com pessoas de confiança que sabem da sinceridade de meus sentimentos. 

Cheguei a defendê-las várias vezes, usando argumentos que creio nem elas usem. Justificando que na até Europa os valores são outros e a nudez não tem o mesmo peso que aqui, e no caso das funkeiras que são vítimas do estado capitalista que pouco se importou com a educação do povo.

Mas no fundo também lamentava, e não acho necessário tais atitudes.

Como fiz com as ucranianas, farei com as daqui, serei obrigada a apoiar, primeiro, porque, sou  minoria (ou a menos que tenha coragem de se manifestar), mesmo porque, não adianta dizer que sou diferente e não apoio. Pois, o simples fato de ser feminista pagarei por qualquer excesso que outras possam cometer.


E pra piorar, além de enfrentarmos a rejeição e discriminação dos conservadores quem pensar como eu, também tem de enfrentar a fúria dos libertários que também nos julgam por não ser favorável a ideia.  Então a maioria como é comum por hipocrisia, dúvida, paternalismo ou por covardia. Se calam para não ter que enfrentarem a situação .

Mas isso não funciona bem comigo, no máximo que me fazem é levar-me a horas de total silêncio para reflexão.


Sempre vi a nudez com bons olhos, admiro como a obra de arte. Uso imagens abusadas em minhas postagens por apreciar o impacto que a insinuação e a nudez causa na sociedade puritana, mas sempre com muito cuidado para não atravessar a fronteira da mediocridade.  


Até hoje com mais idade me visto agressivamente, mas sempre com um certo cuidado com excessos.  Pois tenho noção que não sou só só uma anônima, além de representar causas, sou mãe, filha, companheira e cidadã.


Depois que precisei criar um filho sem que ele sofresse discriminação por minhas atitudes, percebi a necessidade de rever minhas ações. E fui obrigada a me adaptar como nunca a sociedade convencional, porque, preciso sobreviver bem a ela.

Desde pequena nunca admiti que me discriminassem com ofensas como “vadia”. Mesmo antes de ter acesso a feminismo, sempre senti em minha mente que tinha direito a ser respeitada, e mesmo não sendo politizada, independente de seguir as regras sociais, sempre soube que tinha o direito de escolha, mas graças a minha querida mãezinha sempre estive consciente de meus limites. 


Depois de muito errar e constranger minha família. Analisando meus erros e os dos outros em toda a história, uma das coisas que mais apreciei é ter aprendido a ter paciência e coerência.


Que nós de culturas minoritárias também devemos ter o bom senso de nos comportarmos dignamente meio à população.  Seguindo regras básicas de convivência conseguimos ir e vir com mais tranquilidade. 


 Foi assim que consegui crescer e constituir família sempre impondo respeito, porque, sempre tive argumento de ser ética a meu favor.

Se faz necessário, aceitar que tudo que nos empenhamos para mudar, será apenas uma parte das grandes mudanças, com certeza não fácil.  Mas quando aceitei que minha existência não é mais importante que a de todas que assim como eu também o fizeram no passado, me senti reconfortada.

Estou tranquila, pois assim como outras estou fazendo minha parte na história .
Com certeza a frustração é inevitável, mas não é justo comprometermos os outros, muito menos uma causa por causa de nossos anseios.

Embora não mais aprecie manifestações radicais como a das garotas que tumultuaram numa igreja e até mesmo a nudez.  Compreendo e respeito à atitude das que se manifestaram diante da problemática, pois, sei que fora com boa intenção, um ato desesperado contra o descaso social com as vítimas de violência do machismo.
 
Mas como independente de não concordar sofrerei as consequências, então tenho  direito também de manifestar meu ponto de vista contrário.

Chamaram a sociedade pro confronto, e sem sequer estarmos preparadas para o que virá a acontecer, ou sequer tem noção do que estão fazendo. 

Lamento muito, pois com a entrada de uma feminista na presidência, estávamos como nunca adquirindo respeito social.  Na sutileza e surrealismo os ideais libertários estavam tomando espaço político que demorariam décadas no poder conservador. 
  
Vocês comprometeram a causa e era exatamente o que os religiosos queriam, “argumentos para desmerecer nossa luta”.

Nem sei como expressar meu lamento, espero ao menos que alguém compreenda essas frases que escrevi com toda minha honestidade.

Vejo com pesar anos de planejamento e empenho se esfarelarem com poucas atitudes.
Parece coisa tramada, só não me assusta mais, porque, também já fui jovem e radical e sei o quanto são impacientes e muitas vezes incoerentes.

Os pavís foram incendiados.
E sem pretensão, peço apenas calma e bom senso.

                      Mesmo não admitindo ser chamada de vadia, estamos juntas.



Ai, que vadia!

A violência física contra a mulher é só o último estágio de uma série de violências verbais, simbólicas, psicológicas e morais que atingem as mulheres todos os dias. Homens que estupram e agridem mulheres não são doentes: são fruto de uma sociedade profundamente machista que a todo momento estimula comentários que menosprezam, depreciam e agridem as mulheres, de forma tão naturalizada que muitas vezes nem percebemos. Para acabar com o machismo na sociedade é preciso, antes de tudo, encarar o machismo em nós mesmas/os. É por isso que dizemos, sem medo ou constrangimento:

Se ser livre é ser vadia, somos todas vadias!

Marcha das Vadias

Machista vaiado na Marcha das vadias

Machista faz tumulto em marcha da vadias e e dá mal! Ele tentou mostrar seus orgãos genitais e ofender às manifestantes, mas .... kkkkkk

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Interferência religiosa no Estado viola direitos das mulheres


Se a religião interfere no Estado, traçando leis e políticas públicas de caráter religioso, a pluralidade de opções para mulheres e o respeito a seus desejos e sua diversidade deixam de existir.


Uma grande notícia ultimamente fora o TJ-RS proibir símbolos religiosos nas dependências da Justiça gaúcha, pois é uma bela iniciativa para efetivar o Estado laico. Receber essa notícia em plena semana do Dia Internacional da Mulher nos lembra da importância do Estado laico para que as mulheres tenham direitos e a liberdade de serem quem desejarem ser.


Durante muito tempo as políticas de Estado para mulheres foram definidas a partir da visão religiosa de mundo, especialmente a cristã e, mais especificamente ainda, católica. Nessa perspectiva, as mulheres seriam inferiores e por causa disso deveriam se submeter eternamente ao marido (o divórcio era proibido) ou pai, e não poderiam ter direitos políticos. Casamento e maternidade eram tratados como as únicas formas possíveis de vida feminina. 


O direito à educação só deveria existir para treinar mulheres para a maternidade e administração do lar, pois se considerava que o trabalho intelectual impediria a gravidez. Com isso, as mulheres foram relegadas ao analfabetismo ou a uma educação escolar rudimentar. As mulheres que não se encaixavam nesse modelo (lésbicas, prostitutas, mães solteiras, mulheres separadas do marido, etc) foram (e ainda são) perseguidas tanto pela religião quanto pelo Estado.

À medida que se fortaleceu a separação entre Estado moderno e religião, estabelecendo os princípios do Estado laico, foi possível também perceber que mulheres são plurais e que a visão religiosa restringia a liberdade das mulheres. E assim, mulheres lutaram para o Estado reconhecer seu direito de ter acesso aos estudos, a profissão, ao voto. Ainda hoje brigamos para não sermos vítimas de violência por sermos mulheres, pra não haver discriminação no trabalho, para podermos escolher o que fazer com nosso corpo, para não reduzir a mulher ao limitado modelo religioso.

Mulheres querem viver sem serem obrigadas a serem mães (filhos são escolha, não devem ser nem punição nem obrigação), querem trabalhar e estudar na área que desejarem, querem ter relacionamentos afetivos e sexuais além dos modelos sacralizados pela religião. E não querem ser perseguidas por viverem de forma diferente da que as religiões preconizam para elas.

Em um Estado laico os valores da religião de alguns não podem ser impostos a todas as pessoas. E assim, abriu-secaminho para o Estado laico reconhecer as mulheres como sujeitos de direito, perceber sua diversidade e garantir seus direitos: todas as mulheres devem ser reconhecidas e protegidas pelo Estado, e não só as que seguem um determinado modelo religioso.

O Estado laico pune quem discrimina mulheres, cria leis para garantir direito de voto, de estudar, de trabalhar e para diminuir a desigualdade de gênero. O Estado laico incentiva escolas mistas, seculares, com a mesma educação para meninas e meninos. 


O Estado laico vê as mulheres além da questão reprodutiva, criando políticas públicas de atenção integral à saúde (e não apenas ligadas aos órgãos reprodutivos). O Estado laico exclui das leis termos e posicionamentos pejorativos criados em uma época em que o Estado incorporava o preconceito religioso para separar as mulheres em duas categorias: as que seguiam o modelo religioso e por isso deveriam ser protegidas pelo Estado, e as que não seguiam a religião e por isso ficavam à margem da proteção estatal. Juízes em um Estado laico interpretam a lei de forma a não incorporar preconceitos religiosos.

É necessário reforçar esses papéis desempenhados pelo Estado laico para garantir os direitos das mulheres porque nos últimos tempos temos visto exatamente o oposto.
Embora o Brasil seja um Estado laico, cada vez mais surgem propostas legislativas calcadas no discurso religioso, procurando forçar as mulheres a se submeter apenas aos papéis determinados pela religião cristã (bolsa-estupro, cadastro de gestantes, para ficar nos mais óbvios).


 Políticas públicas (como a Rede Cegonha e a recente Medida Provisória 557 para cadastramento de gestantes) estão sendo desenvolvidas com prioridade, reforçando a maternidade e ignorando outras possibilidades em relação à vida e saúde das mulheres. Tanto decisões judiciais quanto a abordagem midiática toleram e minimizam a violência contra mulheres por meio do discurso religioso que as sacrifica em nome da maternidade e da família.

A liberdade de escolher quem queremos ser só é possível quando o Estado é laico. Se a religião interfere no Estado, traçando leis e políticas públicas de caráter religioso, a pluralidade de opções para mulheres e o respeito a seus desejos e sua diversidade deixam de existir.

Neste Neste Dia Internacional da Mulher, quando tantas vozes se levantam para enaltecer apenas a mulher-santa-abnegada do modelo religioso, é preciso lembrar: os direitos e a liberdade das mulheres só existem quando o Estado é laico.


Religião poderá sumir em 9 países.


A pesquisa seguiu um modelo de dinâmica não-linear que tenta levar em conta fatores sociais que influenciam uma pessoa a fazer parte de um grupo não-religioso.
Uma pesquisa baseada em dados do censo e projeções de nove países ricos constatou que a religião poderá ser extinta nessas nações.

Analisando censos colhidos desde o século 19, o estudo identificou uma tendência de aumento no número de pessoas que afirma não ter religião na Austrália, Áustria, Canadá, República Checa, Finlândia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia e Suíça.
Através de um modelo de progressão matemática, o estudo, divulgada em um encontro da American Physical Society, na cidade americana de Dallas, indica que o número de pessoas com religião vai praticamente deixar de existir nestes países.
”Em muitas democracias seculares modernas, há uma crescente tendência de pessoas que se identificam como não tendo uma religião; na Holanda, o índice foi de 40%, e o mais elevado foi o registrado na República Checa, que chegou a 60%”, afirmou Richard Wiener, da Research Corporation for Science Advancement, do departamento de física da Universidade do Arizona.
O estudo projetou que na Holanda, por exemplo, até 2050, 70% dos holandeses não estarão seguindo religião alguma.

Modelo
A pesquisa seguiu um modelo de dinâmica não-linear que tenta levar em conta fatores sociais que influenciam uma pessoa a fazer parte de um grupo não-religioso.
A equipe constatou que esses parâmetros eram semelhantes nos vários países pesquisados, resultando na indicação era de que a religião neles está a caminho da extinção.
“É um resultado bastante sugestivo”, disse Wiener.
“É interessante que um modelo tão simples analise esses dados…e possa sugerir uma tendência”.
“É óbvio que cada indivíduo é bem mais complicado, mas talvez isso se ajuste naturalmente”, disse ele.
BBC


O papa deveria renunciar.

Para o ex-frei, a Igreja ainda funciona como na Idade Média

O brasileiro Leonardo Boff, 71 anos, e o alemão Joseph Ratzinger, 83, têm uma longa história em comum. Intelectuais de fôlego, respeitados fora dos muros da Igreja Católica, os teólogos se conhecem há mais de 40 anos, quando conviveram na universidade, em Munique, Alemanha. O atual pontífice já era um cultuado professor, admirado pelo jovem franciscano que frequentava como ouvinte suas conferências, enquanto preparava a tese de doutorado – que contou com a ajuda providencial do alemão para ser publicada. Tempos depois, os dois trabalharam juntos em uma prestigiosa revista de teologia.

"A Igreja Católica é mais que Bento XVI. É também o papa
João XXIII, é dom Helder Câmara, é a Irmã Dulce (foto)"
Durou pouco, pois as contendas ideológicas provocaram a saída de Ratzinger. Mas o encontro mais marcante aconteceu em 1985, quando ambos estavam, definitivamente, em trincheiras opostas, dentro da mesma instituição. Boff já era o grande mentor por trás da Teologia da Libertação, movimento que interpreta o Evangelho à luz das questões sociais.

 E Ratzinger já havia se tornado o temido cardeal que punia severamente quem se atrevesse a mudar, uma vírgula que fosse, a interpretação oficial da “Bíblia”. O embate terminou com o silêncio forçado do franciscano e sua posterior saída da ordem, em 1992. Vinte e cinco anos depois desse encontro, casado com Márcia Miranda, padrasto de seis filhos e autor de mais de 60 livros traduzidos para diversas línguas, Boff analisa a Igreja da qual nunca se afastou e seu líder máximo. Que ele conhece como poucos.



"O cristianismo (dos padres cantores, como Marcelo Rossi)
não pode funcionar como um ansiolítico que nos alivia"



ISTOÉ - A Igreja Católica está em crise?

LEONARDO BOFF -
A Igreja possui uma crise própria: até hoje ela não encontrou seu lugar no mundo moderno e  no mundo globalizado. Suas estruturas são medievais. Ela é a única monarquia absolutista do mundo, concentrando o poder em pouquíssimas mãos. Nesse sentido ela está em contradição com o sonho originário de Jesus que foi o de criar uma comunidade fraterna de iguais e sem nenhuma discriminação.


ISTOÉ - Mas a Igreja Católica pode se modernizar sem perder a essência de seus princípios e, consequentemente, sua identidade?

LEONARDO BOFF -
A Igreja se engessou em suas doutrinas, em suas normas, em seus ritos que poucos entendem e num direito canônico escrito para legitimar desigualdades e conservadorismos. Os homens de hoje têm o direito de receber a mensagem de Jesus na linguagem de nossa cultura moderna, coisa que a Igreja não faz. Ela coloca sob suspeita e até persegue quem tenta fazer.

ISTOÉ - O que o sr. acha que a Igreja Católica deveria fazer para sair dessa crise?

LEONARDO BOFF -
Ela deveria ser menos arrogante, deixando de se imaginar a exclusiva portadora dos meios de salvação, a única verdadeira. Ela se diz perita em humanidade, mas maltrata a muitos desta humanidade internamente e ofende a vários direitos humanos. 


Por isso que até hoje não subscreveu a Carta dos Direitos Humanos da ONU, sob o pretexto de que ela não faz nenhuma referência a Deus, e retirou seu apoio ao Unicef, porque ele aconselha o uso de preservativos para combater a Aids e fazer o planejamento familiar. Uma igreja que afirma constantemente que fora dela não há salvação, ela mesma precisa de salvação.


ISTOÉ - O sr. acha que os escândalos de pedofilia contribuem para a debandada católica, com fiéis migrando, no Brasil, principalmente, para as igrejas evangélicas?

LEONARDO BOFF -
Muitos cristãos não aceitam ser infantilizados pela Igreja como se nada soubessem e tivessem que receber a comida na boca. Estes estão emigrando em massa. Mas é uma emigração interna. Continuam se sentindo dentro da Igreja, mas não identificados com as doutrinas deste papa, nem com o estilo com o qual ela se apresenta no mundo, com hábitos e símbolos palacianos que os tornam simplesmente ridículos. As igrejas evangélicas crescem porque a católica deixou um espaço vazio.


ISTOÉ - Muitos vaticanistas dizem que Bento XVI pensa em termos de séculos e não está preocupado em conquistar mais fiéis. O sr. concorda?

LEONARDO BOFF -
Bento XVI é fiel a uma esdrúxula teologia que sempre defendeu e da qual eu ainda como estudante e ouvinte dele discordava. Ele é um especialista em Santo Agostinho, grande teólogo. 


Santo Agostinho partia do fato de que a humanidade é uma “massa condenada” pelo pecado original e pelos demais pecados. Cristo a redimiu. Criou um oásis onde só há salvação e graça. Esse oásis é a Igreja. Ocorre que esse oásis é uma fantasia. Ele é tão contaminado como qualquer ambiente, haja vista os pedófilos e outros escândalos financeiros.

ISTOÉ - Como o sr. avalia o pontificado de Bento XVI?

LEONARDO BOFF -
Do ponto de vista da fé, este papa é um flagelo. Ele fechou a Igreja de tal forma  sobre si mesma que rompeu com mais de 50 anos de diálogo ecumênico, vive criticando a cultura moderna, desestimula qualquer pensamento criativo, mantendo-o sob suspeita. Todo papa tem a missão imposta por Jesus de “confirmar os irmãos e as irmãs na fé”. Esta missão, a meu ver, não está sendo cumprida.


ISTOÉ - Por quê?

LEONARDO BOFF -
Bento XVI cometeu vários erros de governo com respeito aos muçulmanos, aos judeus, às mulheres e às religiões do mundo. Reintroduziu o latim nas missas em que se reza ainda pela conversão dos judeus, reconciliou-se com os mais duros seguidores de Lefebvre (Marcel Lefebvre arcebispo católico ultraconservador, que morreu em 1991), verdadeiros cismáticos. 


Enquanto trata a nós teólogos da libertação a bastonadas, trata os conservadores com mão de pelica. É um papa que não suscita entusiasmo. Mesmo assim, convivemos com ele, porque a Igreja é mais que Bento XVI. É também o papa João XXIII, é dom Helder Câmara, é a Irmã Dulce, a Irmã Doroty Stang, é dom Pedro Casaldáliga e tantos e tantas.

ISTOÉ - O sr. acha que ele deveria renunciar?

LEONARDO BOFF -
O papa, para o bem dele e da Igreja, deveria renunciar. Devemos exercer a compaixão: ele é um homem doente, velho, com achaques próprios da idade e com dificuldades de administração, pois é mais professor que pastor. Em razão disso, faria bem se fosse para um convento rezar sua missa em latim, cantar seu canto gregoriano que tanto aprecia, rezar pela humanidade sofredora, especialmente pelas vítimas da pedofilia, e se preparar para o grande encontro com o Senhor da Igreja e da história. E pedir misericórdia divina.


ISTOÉ Como foi a convivência dos srs. no mesmo ambiente acadêmico?

LEONARDO BOFF -
Ouvi-o muitas vezes, pois era um apreciado conferencista. Teve um papel importante na publicação de minha tese doutoral, que, por seu tamanho – mais de 500 páginas –, encontrava dificuldades junto às editoras. Ele encontrou uma, arranjou-me boa parte do dinheiro para a impressão em forma de livro. Depois fomos colegas nas reuniões anuais da revista internacional “Concilium”. Mas ele se desentendeu com a linha da revista e criou uma outra, a “Communio”, em franca oposição à “Concilium”.


ISTOÉ -Anos depois, em 1985, já na  Congregação para a Doutrina da Fé, ele o puniu. Como foi esse encontro?

LEONARDO BOFF -
Ele me fez sentar na cadeira onde sentou Galileo Galilei,  no famoso edifício, ao lado do Vaticano, do Santo Ofício e da antiga Santa Inquisição. Foi meu “inquisidor”, interrogando-me por mais de três horas sobre o livro “Igreja: Carisma e Poder”, que me custou o “silêncio obsequioso”, a deposição de cátedra e a proibição de publicar qualquer coisa. Mas devo dizer que é uma pessoa finíssima, extremamente elegante na relação, mas determinado em suas opiniões. E muito, mas muito, tímido.


ISTOÉ -O sr. é a favor da ordenação de mulheres pela Igreja Católica?

LEONARDO BOFF -
Não há nenhuma doutrina ou dogma que impeça as mulheres de serem ordenadas e até de serem bispos. O patriarcalismo intrínseco à instituição, governada só por homens e celibatários, faz com que não se tenha apreço pelas mulheres nem se reconheça o imenso trabalho que fazem dentro da Igreja. E, no entanto, devemos reconhecer que as mulheres, nos evangelhos, nunca traíram Jesus, como fez Pedro, foram as primeiras testemunhas do fato maior para a fé cristã, que é a ressurreição, e também foram discípulas.


ISTOÉ -O sr. também é a favor do fim da obrigatoriedade do celibato?

LEONARDO BOFF -
O primeiro papa, Pedro, era casado. Aceito o celibato livremente assumido pelos que se propõem a servir às comunidades cristãs. Seria tão enriquecedor para a própria Igreja se houvesse, como há em outras igrejas, padres casados e padres celibatários. Mas o celibato desempenha uma função importante no estilo autoritário da instituição: ela pode dispor totalmente dos celibatários, sem laços com a família, transferi-los para onde quiser e ver-se livre de problemas de herança.

ISTOÉ - O sr. acha que os casos de pedofilia cometidos por padres têm relação com a obrigatoriedade da castidade?

LEONARDO BOFF -
Entre a pedofilia e o celibato há um denominador comum que é a ­sexualidade. A educação sexual que os candidatos ao sacerdócio recebem é carregada de suspeitas e distorções e é feita longe do contato com as mulheres. Hoje sabemos que o homem amadurece sob o olhar da mulher e vice-versa. Quando se tolhe um desses polos da equação, pode surgir o recalque, a sublimação e as eventuais distorções. A pedofilia é uma distorção de uma educação sexual mal realizada. Ademais, a pedofilia é um pecado e um delito.


ISTOÉ - O sr. pode explicar melhor?

LEONARDO BOFF -
A Igreja só via o pecado que podia ser perdoado, e tudo terminava aí. Não via as vítimas, que eram crianças e adolescentes que sofreram violência. Ela não via o delito que deve ser levado aos tribunais para ser julgado e receber a punição adequada. Este lado sempre foi mantido em sigilo, para não prejudicar a imagem da Igreja. Isso configura cumplicidade no crime. Graças a Deus, o papa agora acordou, se redimiu, reconheceu o delito e exige a denúncia dos pedófilos aos tribunais civis.

ISTOÉ - Quando o sr. era frei franciscano, soube de casos de abuso sexual?

LEONARDO BOFF -
Nunca soube de nada.

ISTOÉ - O que o sr. acha da Renovação Carismática Católica?

LEONARDO BOFF -
É um movimento forte, que trouxe muitos elementos positivos, pois tirou o monopólio dos padres. Agora o leigo fala e inventa orações, coisa que não ocorria. Deu certa leveza ao cristianismo, muito centrado na cruz e na paixão e menos na alegria e na celebração. Mas, a meu ver, ela ficou a meio caminho.

ISTOÉ - Por quê?
LEONARDO BOFF -
Não se pode pensar no cristianismo sem justiça social e preocupação com os pobres. Todo carismatismo corre o risco de alienação. Eles se perdem no louvor, no cantar e dançar.


ISTOÉ - E como o sr. avalia os padres cantores, como Marcelo Rossi e Fábio de Melo?

LEONARDO BOFF -
Eles produzem um tipo de evangelização adequada ao que é dominante hoje, que é o mercado. Mas com as limitações que o mercado impõe, tenham eles consciência disso ou não. É sempre problemático, do ponto de vista teológico, transformar a mensagem cristã numa mercadoria de fácil consumo e de pacificação das consciências atribuladas. Noto que as grandes questões sociais estão ausentes em seus discursos e cânticos.


ISTOÉ Por quê?

LEONARDO BOFF -
Eles falam sobre questões subjetivas. O cristianismo não pode funcionar como um ansiolítico que nos alivia, mas deve falar às consciências para que as pessoas tomem decisões que vão na direção do outro. Para mim, a mensagem cristã não significa buscar um porto seguro onde ancoramos para repousar. Mas é um chamado para irmos ao mar alto, para enfrentar as ondas perigosas. E não pedimos a Deus que nos livre das ondas, mas que nos dê força e coragem para enfrentá-las.

ISTOÉ - O sr. ainda é católico?

LEONARDO BOFF -
Sou católico apostólico franciscano. Acho que São Francisco foi o último cristão verdadeiro e talvez o primeiro depois do Único, que foi Jesus Cristo. O franciscanismo me inspira mais do que o romanismo porque o romano é apenas uma qualificação geográfica.





Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, no sul do Brasil, a 14 de Dezembro de 1938, descendente de italianos. Leonardo e seu irmão Clodovis são dois entre os onze filhos de uma família unida, cujo pai era professor de escola primária e a mãe, uma mulher dinâmica, apesar de iletrada. No decurso do sacerdócio franciscano, Boff estudou Filosofia e Teologia, primeiramente em Curitiba, Paraná, e, mais tarde, em um importante seminário franciscano, em Petrópolis, Rio de Janeiro. Ali teve como professores Constantino Koser - que posteriormente se tornou o Superior Geral da Ordem Franciscana - e Boaventura Kloppenburg, para quem trabalhou como secretário particular. Nos anos anteriores à Teologia da Libertação, final da década de 50 e início de 60, a cristologia de Boff era inquestionavelmente moderada, se não tradicional, seguindo a linha teológica de sua formação.

Com os fundos recebidos por uma bolsa de estudos, pôde especializar-se nos estudos teológicos na Universidade de Ludwig-Maximilian, em Munique. O seu maior desejo era estudar diretamente com Karl Rahner, mas, por alguma razão, isto não foi possível - embora Rahner, juntamente com L. Scheffczyk e H. Fries tivessem supervisionado os seus estudos. Enquanto esteve na Europa, Boff também fez alguns cursos em Louvain, Würzburg e Oxford. A sua tese sobre a natureza sacramental da Igreja Católica Romana no mundo moderno foi, entusiasticamente, apreciada em Munique, despertando a admiração de Joseph Ratzinger (actual Papa Bento XVI).

Após concluir o doutorado em 1970, regressou ao Brasil, para leccionar Teologia Sistemática no Instituto de Filosofia e Teologia, em Petrópolis, onde havia estudado. Homem de diligência e capacidade intelectual impressionantes, nos anos seguintes, paralelamente ao seu ministério de ensino, Leonardo Boff foi redactor de duas publicações influentes, a Revista Eclesiástica Brasileira e a Concilium. Além disso, durante anos coordenou o sector de publicações teológicas da Editora Vozes, participando de várias comissões teológicas da Igreja Católica Romana no Brasil e América Latina.

Nos útimos anos, com os atritos entre a Teologia da Libertação e a hierarquia católica romana, Boff tornou-se uma peça-chave, à medida que se empenhou na expansão da liberdade e autonomia da igreja latino-americana. Em posição inversa à do passado, o Bispo Kloppenburg e o Cardeal Ratzinger (actual Papa Bento XVI) são hoje os seus maiores oponentes declarados. Pelo menos por três vezes, Boff já foi convocado para um interrogatório pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Em 1979, a acusação levantada foi sobre uma cristologia heterodoxa, e o seu artigo "Aclarações", publicado em diversos jornais da época, foi suficiente para a aprovação de uma medida disciplinar. Novamente em 1984, a Santa Sé estava insatisfeita com Boff, desta vez devido à sua posição crítica contra a hierarquia e a estrutura católicas, defendida no livro “Igreja, Carisma e Poder”, publicado pela Ed. Vozes. A Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé condenou-o a um ano de silêncio (1985-1986), o que provocou a revolta de muitos latinos. No entanto, dez meses depois, a pena foi suspensa pelo papa. Em Junho de 1987, Boff foi mais uma vez convocado por Roma para um interrogatório, sob as mesmas acusações - eclesiologia e cristologia deturpadas, conforme exposto nas obras “E a Igreja se Fez Povo” e “A Trindade, a Sociedade e a Libertação”, respectivamente - cujas consequências ainda não foram determinadas.

Apesar dos seus livros atingirem a venda elevada de quase meio milhão de exemplares, Boff continua vivendo modestamente, fiel ao seu voto franciscano de pobreza. A maior parte de seu tempo é empregada em seu escritório particular, cedido pela Vozes. Embora dificilmente se ausente do escritório por muitos dias consecutivos, suas raras saídas são geralmente para dar aulas no seminário ao lado ou para estimular a Comunidade Eclesial de Base, na Favela do Lixo. A nível internacional, contudo, Boff viaja muito, e, a pedidos incessantes, tem estado nas Américas Latina e do Norte e na Europa, mais recentemente, em Moscovo (através de um convite). A sua defesa ardente em prol do comunismo russo, diante das decepções do Ocidente, tem se tornado uma questão substancialmente polémica.

Em 1992, ante nova ameaça de punição, desligou-se da Ordem Franciscana e pediu dispensa do sacerdócio. Sem que esta dispensa lhe fosse concedida, uniu-se, então, à educadora popular e militante dos direitos humanos Márcia Monteiro da Silva Miranda, divorciada e mãe de seis filhos. Boff afirma que nunca deixou a Igreja: "Continuei e continuo dentro da Igreja e fazendo teologia como antes", mas deixou de exercer a função de padre dentro da Igreja.

A sua reflexão teológica abrange os campos da Ética, Ecologia e da Espiritualidade, além de assessorar as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e movimentos sociais como o MST. Trabalha também no campo do ecumenismo.

Em 1993 foi aprovado em concurso público como professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde é actualmente professor emérito.

Foi professor de Teologia e Espiritualidade em vários institutos do Brasil e exterior. Como professor visitante, leccionou nas seguintes instituições: de Universidade de Lisboa (Portugal), Universidade de Salamanca (Espanha), Universidade Harvard (EUA), Universidade de Basileia (Suíça) e Universidade de Heidelberg (Alemanha). É doutor honoris causa em Política pela universidade de Turim, na Itália, em Teologia pela universidade de Lund na Suécia e nas Faculdades EST – Escola Superior de Teologia em São Leopoldo (Rio Grande do Sul). Boff fala fluentemente alemão.

A sua produção literária e teológica é superior a 60 livros, entre eles o best-seller “A Águia e a Galinha”. A maioria de suas obras foram publicadas no exterior.

Actualmente, viaja pelo Brasil dando palestras sobre os temas abordados em seus livros e também em encontros da Agenda 21. Vive em Petrópolis (RJ) com a educadora popular Márcia Miranda.

Pensador fértil e criativo, esse sacerdote franciscano tem revelado uma produtividade e uma clarividência notáveis, tendo já publicados mais de sessenta livros, desde 1970, e uma grande soma de artigos avulsos.


Bibliografia.
Leonardo Boff, Como Fazer Teologia da Libertação;
O Destino do Homem e o Mundo - O Evangelho do Cristo Cósmico;
A Graça Libertadora no Mundo; Igreja, Carisma e Poder;
E a Igreja se Fez Povo - Eclesiogénesis: A Igreja que Nasce do Povo;
Jesus Cristo, Libertador;
Paixão de Cristo, Paixão do Mundo- Os Sacramentos da Vida e a Vida dos Sacramentos;
Vida para além da Morte;
Sander, Jesus, O Libertador - A Cristologia da Libertação de Leonardo Boff.




Relatório da Igreja Católica indica 700 queixas contra clero por abuso sexual



Cerca de 700 pessoas, entre elas 21 menores, atualmente, acusaram membros do clero católico dos Estados Unidos de abuso sexual, informa o nono relatório anual sobre o assunto, publicado pela Conferência de Bispos americana.
O relatório foi elaborado pela sociedade de auditoria StoneBridge Business Partners, encomendado por dioceses católicas e que vem sendo realizado anualmente, desde a explosão do escândalo de pedofilia em 2002, quando o arcebispo de Boston admitiu ter protegido um padre acusado de atos de pedofilia.

"No total, 683 adultos vítimas no passado registraram os fatos pela primeira vez" em 2011, diz o informe relativo à aplicação de uma carta de proteção das crianças, precisando que "a maior parte das alegações dizem respeito a fatos ocorridos há algumas décadas".

Assim, 68% aconteceram entre 1960 e 1984 e, a maior parte, entre 1975 e 1979, acrescentou o relatório, segundo o qual muitas pessoas acusadas já morreram e outras foram afastadas de suas funções sacerdotais.

Vinte e uma acusações são relativas a menores de idade atualmente, entre as quais sete foram admitidas como críveis pela polícia e três foram consideradas falsas.

Os custos para a Igreja, com a indenização paga às vítimas, os honorários de advogados e os tratamentos para os acusados, elevaram-se a 109 milhões de dólares em 2011 contra 124 milhões de dólares no ano precedente.

Mesmo se o relatório destaque que a maioria das acusações diz respeito a um passado distante, "a igreja deve permanecer vigilante e fazer o possível para que os abusos não mais se repitam", escreveu o cardeal Timothy Dolan, presidente da conferência.

A publicação do relatório, datado de terça-feira, acontece algumas semanas após a abertura no final de fevereiro, na Pensilvânia (leste) do primeiro processo contra um bispo que teria encoberto padres pedófilos.


Custo dos abusos sexuais para a Igreja supera US$ 2 bilhões
O custo financeiro direto do escândalo de pedofilia supera para a Igreja Católica 2 bilhões de dólares, embora não seja comparável à "perda da inocência" das vítimas, disseram nesta quarta-feira dois especialistas em um simpósio sobre o tema em Roma.

"É provavelmente razoável estimar que o verdadeiro custo da crise, (o dinheiro) que a Igreja teve que desembolsar em nível internacional, se situe muito acima dos 2 bilhões de dólares", indicaram os americanos Michael J. Bemi e Patricia Neal, durante uma conferência organizada na Universidade Gregoriana de Roma.

A soma inclui as indenizações e o custo ligado às investigações, aos julgamentos e aos tratamentos das vítimas. Mas existem outros custos, que correspondem ao que poderia ter sido feito "com o dinheiro perdido para sempre": "Quantos hospitais, seminários, escolas, abrigos para mulheres maltratadas e seus filhos, estruturas de alimentação, clínicas gratuitas, etc., poderíamos ter construído?", perguntaram.

"Mas não há comparação possível", disseram, "entre qualquer quantia em dinheiro e a perda da inocência de crianças e adultos vulneráveis", que são dezenas de milhares.

Os dois especialistas, que estão à frente dos programas VIRTUS do National Catholic Services de proteção à infância, detalharam todos os males psicológicos das vítimas, os custos de longos tratamentos e os danos causados no seio das famílias.



Postura de dona da verdade facilita pedofilia na igreja

A onda de escândalos de pedofilia na Igreja está ligada ao fato de que a “instituição pensa que é dona da verdade, se encontra em uma situação de onipotência e esconde assim os fatos”. A opinião é de Christine Pedotti – historiadora e teóloga, co-fundadora da Conferência Católica dos batizados da França, um movimento que critica a extrema centralização e falta de democracia na Igreja Católica – em entrevista ao jornal Libération, 25-03-2010.

 Eis a entrevista.

Como você explica essa onda de escândalos na Igreja Católica?
Acho que estamos assistindo a uma liberdade de expressão, as pessoas se atrevem a falar. Não acredito em uma conspiração para complicar Bento XVI como sugerem alguns sites ultras católicos. É mais fácil dizer que a culpa é da mídia, do que reconhecer que é preciso compreender o que está por detrás desses acontecimentos.

O que é preciso compreender sobre esses acontecimentos?
Eu não estou de toda segura que exista uma correlação entre o celibato dos padres, frustração sexual e pedofilia. Eu acredito, entretanto, que há uma correlação entre a pedofilia e uma instituição que pensa que é dona da verdade e se encontra em uma situação de onipotência e esconde assim fatos que são individualmente horríveis, mas que se tornaram ordinários. 

Os escândalos de pedofilia não têm nada a ver com o celibato dos padres, mas com a incapacidade da instituição em reconhecê-los. 

É preciso se perguntar sobre a forma como a instituição coloca homens em situação de autoridade sobre as almas, e cuja autoridade sobre as almas podem ser pervertidas pelo poder sobre o corpo.

Você não acha que alguns católicos sofrem de imaturidade sexual e se “refugiam” no sacerdócio?
Não existem estatísticas e tampouco análises sobre se de fato existe uma especificidade da pedofilia no caso dos padres. Nós não podemos dizer que há certa percentagem de pedófilos na população em geral proporcional a um percentual com os sacerdotes, ou se é um fenômeno específico do sacerdócio. Lembro-me do livro Le nouveau visage des prêtres [A nova cara dos padres – tradução livre]. O autor é um padre americano que foi vigário geral, secretário de um bispo e diretor de seminário. 

Este livro foi escrito no contexto dos casos de pedofilia divulgados nos EUA no início de 2000. Ele sugere que os casos de pedofilia no clero têm uma especificidade que levanta questionamentos. 

A verdadeira questão não seria o celibato, mas a imaturidade sexual de alguns jovens que querem se tornar padres quando ainda se encontram na fase da puberdade. É uma escolha bastante incomum um jovem decidir que não terá uma vida sexual e tampouco uma família. Que não exercerá a responsabilidade da paternidade. Talvez ele devesse se interrogar sobre essa escolha.




Caso de pedofilia na Holanda leva a 33 prisões no mundo

Trinta e três pessoas de diferentes países foram detidas graças às informações reunidas em uma investigação na Holanda sobre um funcionário de uma creche condenado por pedofilia, afirmou nesta quarta-feira a procuradoria-geral holandesa.


"Houve 33 prisões em todo o mundo, das quais oito nos Estados Unidos e 13 na Holanda", disse à AFP Wim de Bruin, porta-voz da procuradoria-geral holandesa.

Os demais suspeitos foram detidos no Canadá, Alemanha, Polônia, Suécia e Inglaterra, entre outros países.

Robert M., um holandês de origem letã de 28 anos, foi condenado no dia 21 de maio a 18 anos de prisão por ter cometido abuso sexual contra 67 crianças e ter produzido e distribuído pornografia infantil.

Após a análise dos computadores, discos rígidos e cartões de memória do ex-funcionário de uma creche, foram encontrados mais de 1.100 contatos na internet, de acordo com um comunicado da procuradoria.

Os resultados da investigação foram repassados para 52 países de todo o mundo.

Entre os 33 presos, alguns foram detidos por posse e distribuição de pornografia infantil, enquanto outros são suspeitos de abuso sexual infantil.

"Numerosas investigações na Holanda e no exterior estão em andamento", afirma o comunicado.

Robert M., preso em 7 de dezembro de 2011, admitiu os fatos. Entre 2007 e 2010, trabalhou em várias creches em Amsterdã, onde era responsável por crianças a partir de 4 anos, e também trabalhou como babá.

Seu companheiro, um holandês de 39 anos, foi condenado a seis anos de prisão por posse de pornografia infantil e por "facilitar" os crimes de Robert M.